Quem visita uma sala Montessori de Educação Infantil costuma ver uma cena parecida: uma criança de 4 anos, sentada num tapete, organizando barras de madeira da menor pra maior, muito concentrada. Do lado, outra criança enfia fusos de madeira em compartimentos de uma caixa, um por um, contando baixinho.
É bonito de ver. Mesmo assim, muita família sai da visita com uma dúvida: aquilo é matemática de verdade ou uma brincadeira bem organizada?
É uma pergunta justa pra quem está escolhendo a primeira escola do filho. A gente quer preservar a infância, sem pressão, e ter certeza de que essa fase está construindo alguma coisa. Nessa idade, as duas coisas cabem no mesmo tapete.
Na Agrupada II, que reúne crianças de 3 a 6 anos, a matemática ganha materiais próprios. E fica clara a ideia que atravessa todo o percurso Montessori: primeiro a criança vive a relação matemática com as mãos; depois dá nome a ela, registra e pratica.
Nessa fase, a quantidade ganha nome, símbolo e estrutura. Três cenas ajudam a entender como isso acontece.
A criança está diante de dez barras de madeira, divididas em segmentos vermelhos e azuis. A menor tem um segmento. A maior tem dez. Ela organiza as barras da menor pra maior, formando uma escada.
Essa escada não é nova pra ela. Antes, na área sensorial, ela trabalhou com barras do mesmo tamanho, todas vermelhas, pra perceber o que é curto e o que é longo. Vale conhecer o que cada material sensorial constrói na criança pra entender por que essa preparação faz diferença. Agora, os segmentos coloridos deixam a quantidade visível: dá pra contar cada parte.
Quando pega a barra do cinco, o cinco não é um desenho no papel. É um objeto inteiro, que ela segura, compara e conta, segmento por segmento. Maria Montessori escolheu barras, e não bolinhas soltas, justamente por isso: com a barra, o número existe como uma coisa só, formada por partes iguais.
Só depois de conhecer as barras a criança conhece os algarismos. Eles vêm recortados em lixa, e ela percorre cada um com os dedos enquanto ouve o nome. O dedo aprende o movimento certo do traçado, que mais tarde vai virar escrita, do mesmo jeito que acontece com as letras de lixa na alfabetização. Em seguida, ela coloca cada algarismo em cima da barra correspondente.
O símbolo não cria o conceito. Ele dá nome a algo que a criança já compreendeu. O "5" passa a significar alguma coisa.
Depois das barras, a criança faz o caminho inverso: parte do símbolo e vai buscar a quantidade.
Na caixa de fusos, cada compartimento tem um algarismo, de 0 a 9. A criança coloca em cada um a quantidade certa de fusos de madeira: um fuso no 1, dois no 2, três no 3.
E então chega ao zero. Não há nada pra colocar ali. O compartimento fica vazio, e é exatamente isso que o zero quer dizer.
Aqui a quantidade não vem pronta numa barra única. São peças soltas, e a criança entende que o "4" escrito representa quatro coisas reais, juntas ou separadas.
Contar até dez é uma conquista. Mas o que acontece depois do dez?
Pra responder, a criança usa o material semi-simbólico: barrinhas coloridas formadas por pequenas unidades presas umas às outras. Cada número de 1 a 9 tem sempre a mesma cor, e a barrinha do 10 é dourada. A criança ainda consegue ver e contar cada unidade, mas agora a quantidade já vem organizada em grupos.
Ao lado do tapete fica a Tábua de Séguin, uma tábua de madeira com o número 10 escrito várias vezes, um embaixo do outro. O guia, como chamamos o educador Montessori, coloca no tapete a barrinha dourada do 10 e, à direita dela, a barrinha do 1. A criança conta tudo junto: onze.
Depois, olha pra tábua. O guia pega uma peça com o algarismo 1 e desliza a peça exatamente por cima do zero do 10. Diante dos olhos da criança, o 10 vira 11. Ela coloca a quantidade que montou ao lado do número que acabou de se formar, e entende, sem que ninguém precise usar palavras difíceis, que "11" quer dizer uma dezena inteira e mais uma unidade.
O mesmo processo se repete até o 19. Depois, com uma segunda tábua, a criança avança pelas outras dezenas, até o 99. E, ao ver o 1 deslizar sobre o zero, ela tem o primeiro contato com uma das ideias mais importantes da matemática: o lugar onde o algarismo fica muda o que ele vale.
Boa parte desse trabalho segue o que em Montessori se chama de lição em três tempos. Primeiro, o guia dá o nome: "Isto é onze." Depois, pede que a criança reconheça: "Me mostra o onze." Por fim, pergunta: "O que é isto?"
Quando a criança responde sozinha, o nome e a quantidade estão juntos na cabeça dela.
Não. Constrói a compreensão que vai dar sentido ao cálculo.
Uma criança pode aprender a recitar os números de um a vinte sem saber o que cada um quer dizer. Na Agrupada II, a gente quer que ela saiba. Que veja o quatro, segure o quatro, perceba que o quatro vem depois do três e antes do cinco.
Em Montessori, esse tipo de atividade tem nome: trabalho, toda atividade com propósito em que a criança, ao agir sobre o ambiente, desenvolve a si mesma. Não é brincadeira solta, nem tarefa imposta. É um trabalho sério, do jeito que a mente dessa idade aprende melhor. O que a neurociência diz sobre os materiais Montessori ajuda a entender por que aprender com as mãos deixa marcas tão duradouras.
E o trabalho aparece também no dia a dia. A criança passa a usar o vocabulário da matemática com naturalidade: mais, menos, maior, menor, antes, depois. Descobre que todo número tem um vizinho que vem antes e outro que vem depois. Aprende o movimento certo pra traçar cada algarismo. E vai, aos poucos, reconhecendo e nomeando quantidades e numerais até o cem.
O ponto de chegada dessa fase não é saber muitas contas de cor. É entender o que os números são, como eles se organizam e o que cada símbolo representa.
"Na Educação Infantil, matemática é só contar." Contar é uma parte. Dos 3 aos 6 anos, a criança associa quantidade e símbolo, entende o zero, percebe o que vem antes e depois de cada número e descobre como o 11 é formado.
"Se ela não faz conta aos 5 anos, vai ficar pra trás." As operações vêm depois, na Agrupada III. O que a criança constrói agora é justamente o que vai dar sentido a elas: saber o que cada número representa.
"Material concreto é brincadeira." Cada material isola uma ideia e mostra quando algo não fecha: o fuso que sobra, a barra fora da escada. A própria atividade indica o erro.
Na Meimei, a Agrupada II reúne crianças de 3 a 6 anos na mesma sala, num ambiente preparado em que os materiais de matemática ficam ao alcance das mãos. As barras vermelhas e azuis, os numerais de lixa, a caixa de fusos, o material semi-simbólico e as Tábuas de Séguin fazem parte do dia a dia da turma, e a caixa de fusos é um dos materiais mais usados.
As apresentações acontecem individualmente ou em pequenos grupos, quando o guia percebe que a criança está pronta. Ele mostra o material com poucas palavras, se afasta e observa: a criança associa a quantidade ao símbolo? Percebe o próprio erro? Já diz o nome do número sozinha? Se algo não ficou claro, apresenta de novo em outro dia, de outro jeito. Esse cuidado é parte do que o educador Montessori faz quando não está explicando.
Como a turma reúne três idades, a criança de 3 anos vê um colega mais velho montando o 15 na Tábua de Séguin, e o próximo passo deixa de ser abstrato. É essa base, construída sem pressa, que ela leva pra Agrupada III, quando o sistema decimal e as operações entram em cena.
Bem antes dos números, com experiências de ordem, comparação e precisão desde a primeira infância. Os materiais próprios de matemática chegam na Agrupada II, dos 3 aos 6 anos, quando a criança começa a associar quantidade e símbolo.
São dez barras de madeira divididas em segmentos alternados de vermelho e azul, do 1 ao 10. Com elas, a criança vê e segura cada quantidade como uma coisa inteira e percebe que o cinco é maior que o quatro.
Pra criança partir do algarismo e buscar a quantidade certa, com peças soltas. É nela que ela entende o zero: o compartimento que fica vazio porque não há nada pra colocar.
É uma tábua com o número 10 escrito várias vezes. A criança desliza peças com algarismos sobre o zero, vê o 10 virar 11, 12, 13 e monta a mesma quantidade ao lado. Com uma segunda tábua, avança até o 99.
Não é o objetivo dessa fase. Dos 3 aos 6 anos, o foco é entender o que os números representam e como eles se organizam. As operações começam na Agrupada III, apoiadas nessa compreensão.
O que a criança constrói dos 3 aos 6 anos é o chão de tudo o que vem depois: o sistema decimal, as operações, a tabuada e, mais adiante, as estruturas mais complexas da matemática. No guia Das mãos ao pensamento: como a criança aprende matemática em Montessori, a gente mostra esse percurso fase por fase, de 1 ano e meio aos 12 anos, e como cada material prepara o próximo. Baixe gratuitamente aqui.




Somos umas das escolas Montessori mais tradicionais do Brasil, associada à AMI desde 1982. Aqui, o ambiente preparado, os materiais científicos e os agrupamentos mistos fazem parte do cotidiano real..