| “Sempre que chego à casa meu filho corre para abrir minha bolsa e ver o que lhe trouxe. Se não posso comprar-lhe nada, algum dia, ele chora, esperneia, fica ansioso, bate a porta do quarto.”
“Minha filha está sempre querendo comprar alguma coisa, um vestido novo (e já tem vários), uma sandália nova (comprou uma semana passada!), um jogo... Incrível, fico completamente atrapalhada, porque se não permito que compre fica trancada no quarto, não fala comigo, É terrível essa situação.”
Testemunhos como esses se tornam corriqueiros entre famílias. Por quê?
As crianças e os jovens pedem cada vez mais. Por quê, perguntam-se os pais? Um dos motivos é a propaganda veiculada pela mídia, de forma tão sofisticada. Já houve pesquisas feitas nos Estados Unidos, comprovando que a propaganda lança mão de recursos psicológicos que atingem o consumidor no seu inconsciente. Mesmo sabendo que o produto não tem a qualidade e importância anunciados, ao vê-lo numa prateleira de supermercado, por exemplo, o consumidor acaba por adquiri-lo, pois a mensagem absorvida fala muito alto. Imaginemos essa pressão da mídia no inconsciente da criança e do jovem!
Já se sabe que é com o público infanto-juvenil que a maior parte dos produtos é testada. Quando lançados no mercado, os produtos têm consumidor garantido!
Mas, além desse aspecto que tem peso na ânsia de "ter", há a questão da insegurança em relação ao amor recebido dos pais. Quando a relação familiar é pobre, falta afeto, falta atenção, falta diálogo, falta compreensão, a criança ou o jovem tendem a querer preencher o vazio existente com brinquedos, jogos, e até alimentos, mas tudo em excesso.
A sensação de ser mal amada, gera na criança ou no jovem, uma angústia que se transforma em uma necessidade fictícia de ter sempre mais alguma coisa. Na verdade o que eles querem é compensar, preencher, através de objetos materiais, o vazio dos sentimentos não vivenciados. H· uma insistência em ganhar presentes porque é uma forma, inconsciente, de demonstrar sua insegurança e sensação de rejeição. O que crianças e jovens pretendem com as exigências é confirmar se são ou não amados. Os objetos materiais passam a ser referências de amor, amor materializado.
O fato de ambos, pai e mãe trabalharem fora gera, normalmente, no adulto uma sensação de culpa que ele tenta compensar com o "dar presentes". Com esse gesto, os pais criam o hábito de dizer que amam através de coisas materiais, ao invés de dizer com atitudes, palavras e pequenos gestos. Mas não há presente que supra um pouco de tempo passado junto com os filhos, maior demonstração de amor, de preocupação. é preciso gerar momentos de convivência, pequenos que sejam, porém constantes, pois esses momentos têm um forte significado afetivo: estar com, estar junto, compartilhar. E é exatamente disso que carecem os filhos, de um pouco do tempo dos pais.
Os pais que cedem a cada exigência estão corroborando com a sensação de falta de amor. Devem estar atentos e modificar suas relações com os filhos, aprendendo a dizer não, a mostrar que na verdade o que está sendo pedido não é necessário. Uma conversa carinhosa, explicando aos filhos o porquê do não é uma excelente forma de mostrar-lhes amor, amor que se converte em diálogo, em presença.
O não é extremamente saudável e educador, afinal, ao longo da vida muitos nãos serão recebidos pelos filhos, eles precisam estar preparados para isso. Um não justificado, dito com segurança e afeto é um sinal de amor facilmente percebido, e não deixa frustrações.
Na era do consumismo desenfreado, devemos estar mais alertas ás verdadeiras necessidades e atendê-las, abdicando de tudo o que é excesso. O mais importante, ao voltarmos para casa após um dia de trabalho, para mostrar nosso amor a nossos filhos é nos preocuparmos em fornecer-lhes exemplos de vida, compartilhando valores elevados em família, e durante uma refeição saborosa, todos juntos. |