Diante dos escândalos de ordem moral que aparecem nos jornais todos os dias, envolvendo frequentemente pessoas com responsabilidades públicas – governantes, autoridades, políticos – parece urgente responder à seguinte questão: qual é o papel da escola e da sociedade na formação do caráter dos jovens?

        Sabemos que educar o caráter não significa dar conselhos. Se isso funcionasse, o mundo seria um paraíso de honestidade. Tampouco o castigo melhora as pessoas. Aí estão as cadeias cada vez mais lotadas para comprovar. A construção da consciência moral é um processo mais sutil e complexo. E certamente deve começar na infância. Desde cedo é preciso que as crianças entendam que moral é um conjunto de regras de comportamento estabelecidas e adotadas pelos indivíduos do grupo social a que elas pertencem. E para que servem essas regras? Para organizar as relações entre as pessoas e permitir a convivência pacífica. Não são infalíveis nem perfeitas, mas são elas que definem o que é aceitável ou inaceitável na vida em sociedade. Para termos uma vida social, precisamos nos submeter a certas regras.

        Mas a conduta moral autêntica só existe quando essas regras são livre e conscientemente assumidas pelos indivíduos, que se tornam responsáveis por seus atos. Na infância as regras são impostas pela sociedade e a criança é constrangida a aceitá-las. Por exemplo, vamos considerar a regra básica: não devemos ferir os outros, seja fisicamente ou por meio de palavras. Os adultos não podem permitir que uma criança faça isso. Devem impedir que ela aja desse modo, devem mostrar seu desagrado quando ela tem esse comportamento.

        À medida que cresce, o jovem desenvolve o senso crítico e consegue compreender a razão dessa regra, passando a aceitá-la, porque ela é a garantia de que se não pode ferir os outros, os outros não também não podem feri-lo. Ela é uma restrição a seu comportamento (impede-o de fazer uma determinada ação), mas ao mesmo tempo um benefício (os outros também são livres para feri-lo). Perde alguma coisa para ganhar outras.  Esse é o jogo a que nos submetemos voluntariamente para garantir a convivência social. O processo de construção da consciência moral nasce na interação do jovem com o meio cultural e social em que vive. É fruto das relações que ele estabelece com os pais, com a família, com os grupos a que pertence. Nasce, sobretudo, dos exemplos que encontra pela vida. A sociedade é seu professor e educador. Por isso, a discussão sobre moral pode ser iniciada na escola, mas vai muito além dela. E a pergunta que deve ser respondida é: que conceitos morais os adultos estão ensinando à juventude com seus exemplos? O que predomina hoje é o desprezo pelas leis, a ganância, a desonestidade. E isso acontece em todas as classes sociais, nas mais diversas situações. Os adultos parecem agir moralmente apenas quando obrigados, quando têm medo de punição, e não pela consciência de que é necessário agir segundo as regras morais porque isso faz parte do contrato social e garante os direitos humanos básicos.

     A escola, sozinha, não pode mudar essa situação. Não adianta colocar nas costas dos professores uma responsabilidade que deve ser compartilhada com o resto da sociedade. Os professores devem fazer a sua parte, mas e depois da escola?